terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Acreditar


"If you believe that dreams come true
There's one that's waiting there for you."
('If you believe' - Rachael Lampa)



Os dias agora são meus companheiros de horas teimosas: ora rápido, horas que lentamente vão passando, eu oro.  Um aprendizado por segundo, um degustar silencioso. Sem alardes. Só meu peito, no seu ritmo característico, bate entre as sensações e, por vezes, me parece esforçar-se para fazer o papel de oposto do relógio. Mas tudo vai transcorrendo bem, e entre surpresas vou encantando-me com a sabedoria Daquele que segue ordenando todas as coisas. Digo sim e aceito o desafio de, sobretudo não compreender, porque foi isso que aconteceu desde aquele instante. Tenho certeza que o ponteiro travou junto com minha respiração, que se restituiu em seguida como um soluço de vida. É que eu acredito e acreditar exige coragem de sentir mesmo que os motivos sejam apenas estes: os de sentir.

Rafaelle Melo.


P.S.: Esse texto foi também como um soluço de vida, em um susto de alegria mansa.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Uma busca sob o Sol.

 "A humanidade é desumana mas ainda temos chance.
O sol nasce pra todos, só não sabe quem não quer.
Quando o sol bater na janela do teu quarto,
Lembra e vê, que o caminho é um só!
Até bem pouco tempo atrás, poderíamos mudar o mundo
Quem roubou nossa coragem?
Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor."
(Legião Urbana)

Imagem: favim.com


Para o alto! Não as mãos, como naqueles tempos onde os sonhos foram roubados, mas o peito desarmado. Na vertical, que é para onde voa meu coração, escalando sem olhar para trás o desafio de cada dia. A cada pedra ultrapassada, via os joelhos esfolados ouvindo o coração ofegante, quis desistir naquela última parada, percebeste?! - Ouvi um não no teu silêncio. Um sacrifício diariamente consumido. Uma superação por segundo. A duras penas assumi ser livre e com forças descomunais sigo no desafio de me manter em tal conceito. Liberdade! Se prender nessa vida, só se voluntariamente, para dar a alguém aquilo que não cabe em mim de tão grande. Pois também chega esse momento em que é preciso dar-se, porque um dia não se cabe mais em si. Por agora eu cultivo um jardim bonito, tenho plantado minhas sementes.  Depois que perdi aquele papelzinho que o vendedor me dera, no qual havia informações básicas sobre as sementes, terei que plantar as cegas. Desde que joguei-as na terra, tenho notado que sensibilizei-me ao tempo delas e as informações deixaram de fazer falta, felizmente. É que flores não têm o mesmo ciclo que o nosso, são mais sábias e não gastam energias vãs. Existem conhecimentos que não servem nem de adubo. Eu tenho buscado limpar o terreno. Aprendo, e uma gota de suor cai delicadamente lembrando-me que pode haver beleza nos recônditos de uma dor. A surpresa tem costumado visitar meus olhos e eu placidamente tenho entendido que aceita-la é caminho. Dos meus jardins recolho minhas próprias energias florescidas e deixo-me queimar pelo mesmo sol que as flores necessitaram, enquanto as olho e toco com cuidado. Eu também necessito. Os mistérios se encontram. Eu floreio enquanto elas me humanizam. Minha maior liberdade é restringir-me a admirar tudo que a flor pode por agora me oferecer: a espera.

Rafaelle Melo.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Entre tênues notas.


"A cada palavra que se completa no papel
uma peça que faltava cola novamente ao coração." *
(Zíris)




Nas teclas paradas do piano, em meio a um calor sufocante, meus olhos estatelaram firmes em uma compreensão nunca antes tida. Era assim que acontecia desde daqueles dias em que meu peito desfibrilou antigos medos e renasceu. Um brilho tocou então cantos não visitados da minha memória e revi antigas certezas, todas com prazo de validade vencido. Lembrei-me que as utilizava constantemente para diminuir dores agudas ou simplesmente para não me arriscar. E como um fósforo riscado, depois da luz sobra cinzas, hoje indispensavelmente inútil. Nunca negarei um só segundo, vestindo uma face desmemoriada como algumas que vi naquela vertigem que tive. Mesmo com os dedos imóveis escuto uma melodia começar, lentamente, martelando notas firmes. Nunca seriam meus aqueles toques, logo eu, que ainda tenho dedos trêmulos diante das descobertas. Sabia que havia algo de divino e reconhecia naquele toque, repleto de uma aura brilhante que me cegava, o encontro mais pleno que já tive. Fui ouvindo... Ouvindo... Na certeza que havia ali uma harmonização indescritível à carne humana. Uma das notas era dura, agressiva e batia em uma ferida antes exposta, as demais compunham aquele acorde com sutileza em tom de perplexidade, e era tão belo. - Entendeu? Sim - respondi a mim mesma em tom e agilidade de criança entusiasmada, ficando certa, logo em seguida, de que a compreensão era limitada. Aquela era a junção melodiosa do que só agora meus ouvidos podiam receber, sem deixar de lado um pouco de sofreguidão. Quem disse que seria fácil? Era como virar de um gole só um líquido que não mata a sede. Constrição antes do novo paladar.
Coerência. Terei de brigar contigo por quantos milênios ainda? Nesta vida de caminhos tortos qual o limite para caminhar de pé? Qual o ponto antes da hipocrisia? Um silêncio sepulcral foi a única resposta por ora obtida.
Linhas tênues. Tudo que eu tenho nas mãos. Tênue como os espaços que separam a dor pungente daquela nota da alegria destes novos encontros, expressa em uma mesma lágrima, que se faz nova enquanto percorre meu rosto o qual, na medida em que se molha, brilha. A vida pára um pouco de cumprir seu papel e ganha sentido. Eu ganho mais.
Reequilibro-me na corda bamba, no alto de onde vejo cores e crianças brincando. Elas estão de mãos dadas com os meus sonhos, e não os deixaram se perder. A inocência também é uma linha tênue, nessas lições que vai se aprendendo pra vida inteira. Deixe-me errar com a capacidade dos que acertam às vezes. Sei que te custa entender, mas é que não quero mais este pedestal, nem estas honras, nem falsos sorrisos (nem os do espelho). Não perco nem mais um segundo. Veja! É a vida me entregando toda sua potência. Não quero nada que não seja caminho para o que é pleno. O jeito é abrir os braços e deixar a brisa desvelar a beleza, com intensa calma.

Por Rafaelle Melo.





*Nesta frase de Zíris, escrita para Lídia Martins (Pipa), está o sentimento que me percorreu durante toda a escrita desse texto. Na bravura que precisei ter para escrevê-lo fui colando-me, encorajada efusivamente por essa moça dos ares, que cedeu-me esta frase para introduzir minhas linhas. Por essas e outras minha gratidão a você, Pipa. Não preciso dizer mais nada. Você sabe.